Superando Bloqueios Criativos – Dicas de uma Artista

Texto da artista visual Beatrix Oliveira – uma grande amiga e também uma das pessoas mais inteligentes e criativas que eu conheço. A meu convite, ela redigiu esse brilhante post sobre Como Vencer Bloqueios Criativos. Aproveite a leitura!

Como Vencer Bloqueios Criativos

Você já sentiu aquela sensação de paralisia e de um grande vazio mental quando precisa fazer algum trabalho ou ter alguma ideia? E aquela angústia de viver algum problema recorrente e não conseguir pensar em uma solução para mudar o jeito que as coisas estão?

Você talvez se encontre em um BLOQUEIO CRIATIVO. E ele é frustrante, eu sei.

Um bloqueio criativo não acontece somente a artistas. Essa condição pode se apresentar todas as vezes que temos de realizar algo que consideramos desafiador, inovador ou que não esteja dentro das nossas habilidades mais desenvolvidas. Ou seja, quando queremos sair da nossa zona de conforto. Ele também pode acontecer no meio de um projeto importante, ou quando tentamos persistir em uma nova resolução pessoal. Aqueles que consideram ter trabalhos que passam longe da criatividade, ou que não servem para ela, também enfrentam essa questão – mas talvez não se deem conta da sua presença de maneira tão clara.

Isso acontece porque um artista de qualquer especialidade sabe que tem de se relacionar com a sua criatividade para fazer o seu trabalho, dia após dia, e encontrar um meio de produzir. Sua realização depende disso! Então, talvez mais do que outros, ele passa a conhecer cada vez melhor os mecanismos que o levam aos bloqueios e a maneira de superá-los; e a grande maioria deles está nos seus pensamentos.

Alguns deles, que percebi ao longo do meu trabalho como artista, eu compartilharei com vocês mais adiante, me apoiando também nas ideias de John Cleese (comediante inglês conhecido pelo grupo Monty Python), Steven Pressfield (autor do livro War of Art, sobre como vencer bloqueios criativos), Leo Babauta (do blog Zen Habits), e outros artistas e pensadores.

A boa notícia é que, apesar desses bloqueios se apresentarem sob diversos formatos, como um mestre do ilusionismo, não há nada de misterioso na maneira de superá-los. Qualquer um que esteja disposto a abrir sua mente e espírito para um modo criativo pode fazer grandes avanços tomando algumas simples atitudes.

E eis o primeiro truque: aqueles que se consideram não-criativos já estão numa espécie de bloqueio criativo. O tipo que te convence de que criatividade é um dom que poucos possuem, e de que você certamente não é um deles. Isso nos leva à primeira consideração sobre a criatividade que vai também auxiliar a combater essa forma primária do bloqueio criativo (“eu não sirvo para criar nada”):

 

  1. “Criatividade não é um talento, mas um modo de operação”.

          John Cleese

 

Beatrix Oliveira Tattoo
Este é o primeiro grande inimigo do modo criativo de ser – acreditar, comodamente, que ele é um dom concedido a alguns poucos sortudos, cujas personalidades criativas assim nasceram e cresceram. Mas vamos pensar de outro modo por um momento: a maioria de nós frequentou a escola e aprendeu a ler e escrever. Com paciência, método e treino, adquirimos o domínio de uma linguagem que antes nos era misteriosa. Sabendo, assim, que aqueles que não aprenderam poderiam aprender, se quisessem e se esforçassem. Para ser criativo, é necessária uma dedicação semelhante. Podemos dizer que a criatividade é mais parecida com uma habilidade que se treina do que com um dom intransferível.

Vamos citar um exemplo comum. Praticamente todas as crianças pequenas sentem o impulso de fazer marcas em papel com gizes ou outros instrumentos, i.e., desenhar. Mas a imensa maioria substitui o desenho, que até então funcionava como um meio de organizar as percepções sobre o mundo, pela escrita, por volta dos 6 anos de idade. Por influência da alfabetização esse passa a ser o modo dominante pelo qual comunicam suas ideias com lápis e papel. Então qual a diferença entre desenhistas e não-desenhistas?

 

Os que hoje são desenhistas simplesmente continuaram desenhando.

 

É claro que todos temos tendências naturais; mas elas nada são sem o tempo e o espaço devido para desenvolvê-las. Isso significa que aquela pessoa artista cujos quadros você admira, aquela colega piadista que sempre tem algo sagaz na ponta da língua, e aquele pensador que parece sempre ir um pouco mais afundo nas questões sobre a humanidade, todos eles passaram anos se aperfeiçoando a ponto de parecer que o que fazem é simples, fácil e inato – para eles. E muito provavelmente, ao invés de elogiados, vão se sentir desmerecidos se você chamar todo o esforço de uma vida inteira de “dom”.

Esse distanciamento do “comum” para “o que tem o dom” é uma armadilha da nossa vaidade. Friedrich Nietzsche, em seu aforismo 162 de Humano, Demasiado Humano, observa:

Porque pensamos bem de nós mesmos, mas nunca suporíamos que somos capazes de produzir (…) uma cena teatral como a de Shakespeare, nos convencemos de que a capacidade para fazê-lo é algo extraordinariamente maravilhoso, ou um acidente incomum, ou (…) uma dádiva divina.

O que Nietzsche está atentando neste fragmento é ao desconforto que sentimos ao saber que jamais faremos uma obra-prima como a dos mestres que admiramos. Então, a solução é situá-los num patamar inalcançável de gênio, a uma distância segura que não questionará nossas próprias habilidades e esforços. Mas eles também são humanos como nós! Ao fazer isso, continuamos em nossa mediocridade, porém tranquilamente protegidos do incômodo de querer fazer mais. É claro que você não precisa ser o próximo gênio da pintura, mas, para estimular a sua criatividade (ou o seu gênio) tem de saber que ela nada mais é do que “saber dispor os seus tijolos e então construir” algo com eles, como acrescenta Nietzsche no mesmo aforismo, e que até os grandes mestres assim o fazem. Esse comodismo disfarçado de negação é algo que Steven Pressfield, em The War of Art, chama de Resistência – aquilo que nos impede de dar um passo além para realizar uma missão, um trabalho ou um empreendimento importante para o nosso ser. E todo artista tem de lidar com ela constantemente. Então, abandone a ideia de que a criatividade é algo sobrenatural e restrito, fácil para alguns e impossível a outros, e pense mais em como você também é agraciado com as mesmas capacidades e pode desenvolvê-las. Pode ser que leve mais tempo do que a sua ansiedade gostaria, mas sim, é possível ser criativo sem ter um dom.

E isso tudo ainda é diferente da inspiração, de quem falaremos mais adiante. Para nos prepararmos para ela, vamos aproveitar o gancho e ver um pouco sobre como começar a dispor os seus tijolos da criatividade:

 

2.  O Caos Organizado

Beatrix Oliveira Tattoo

Imagine um médico cirurgião em um procedimento importante, com risco de morte para o seu paciente. Ele precisa fazer um corte num lugar preciso e então estancar o sangue, para evitar uma perigosa hemorragia. Porém, depois de feito o corte, ele descobre que o instrumento que pararia o sangramento não está ali ao lado, mas sim no meio de uma pilha de outros instrumentos cirúrgicos, do outro lado da sala, e ainda pior – esperando uma esterilização que deveria ter sido feita ao fim do procedimento anterior. Conseguem imaginar a angústia e o sentimento de irresponsabilidade desse médico?

É assim que que o seu trabalho criativo deve ser tratado – como algo sério, importante, e que necessita de organização para que flua da melhor maneira. As ideias e os processos criativos em sua mente e espírito têm a velocidade de uma hemorragia numa artéria com um corte, ou a fluidez de uma corrente de água numa fonte, para criar uma imagem mais amena. Então você precisa estar pronto para a ação quando for fazer o corte ou abrir a torneira. Muitas vezes, a falta de organização, seja da mente, do tempo ou espaço, pode matar as ideias e os projetos mais promissores. Lembre-se: quando as ideias surgem, elas precisam encontrar o caminho livre. Se durante o processo de trabalho você ficar parando o tempo todo porque esqueceu alguma coisa, ou porque perdeu tal outra, vai quebrar o fluxo da ação e provavelmente terá de começar novamente uma vez que tenha o que necessita em mãos. Você precisa estar pronto para dar à luz essas criações!

Eu sei que muitas das personalidades criativas aparentam ser desregradas, soltas, e até mesmo viver num ambiente constantemente bagunçado, mas isso não é verdade na maioria dos casos – é mais uma ideia falsa que surge pela falta de proximidade com a criação. Aliás, muitos dos gênios criativos desenvolvem métodos próprios de organização, que vão aprimorando à medida que conhecem melhor seu processo de trabalho, os materiais e as necessidades advindas dele. Muitos dos chamados bloqueios criativos são um problema de organização. Antes de querer ter o seu próprio método, no entanto, comece pelo básico:

 

_TEMPO.

Reserve um tempo semanal para desenvolver sua criatividade e seu trabalho criativo. Sem isso, você não sairá do lugar. Três vezes por semana é um bom começo, e não falte com o seu compromisso. É tão importante quanto salvar uma vida, lembra-se? Se assim o fizer, quebrará o fluxo da ação, o que vai prejudicar o desenvolvimento de um hábito a longo prazo. Se está com dificuldades de descobrir qual exatamente seria a expressão da sua criatividade, faça diversos experimentos em diversas áreas, e não desanime se não obtiver resultados rápidos. Perceba o que mais lhe atrai e vá em frente. A persistência nos objetivos é o que separa meras tentativas do almejado sucesso. 

 

_ESPAÇO.

Uma vez que tiver seu tempo reservado para a criação, pense no que vai precisar e separe os objetos de antemão. Se vai escrever, pegue papel, caneta, os livros que vai usar de referência, abra o Word. Escolha um lugar reservado, onde possa ficar consigo mesmo e ouvir seus pensamentos sem interrupção – e isso inclui distância de redes sociais ou outros meios que possam significar distração. Também inclui dizer às pessoas ao seu redor que talvez não seja a melhor hora para ver vídeos de gatos na internet. Limpe sua mesa ou local de trabalho de tudo o que não tenha a ver com o que você quer fazer. Isso criará espaço físico e mental para a ação criativa, além de fazer você tomar consciência do que você realmente precisa para trabalhar. E igualmente importante é guardar os objetos utilizados uma vez que o processo esteja encerrado naquele dia.

Independentemente do tempo e do espaço que você já separa para desenvolver suas ideias e estimular sua criatividade, eis aqui o segundo truque: uma mente criativa está, praticamente, sempre em operação. Ela sabe que tudo o que ocorre à sua volta pode servir de estímulo para o próximo quadro, a próxima música, o próximo texto. Ou até mesmo uma nova maneira de fazer essas coisas todas, já que o mais do mesmo é um tipo de bloqueio que acomete muitas mentes criativas (“sempre faço a mesma coisa!”)

Para quebrar com a monotonia e abrir a caixinha da novidade, também é necessário organizar-se. Ou, nesse caso, reorganizar-se:

 

_CONTEÚDO.

Uma das técnicas mais utilizadas para fazer aflorar o pensamento criativo chama-se brainstorming, ou a tempestade de ideias. Essa técnica consiste em pegar uma folha de papel e simplesmente colocar tudo o que vem à mente sobre um assunto determinado, sem se preocupar em reler ou julgar o que está sendo escrito. Não tenha preoconceito com as ideias que vão surgindo. Não se preocupe se parecem bobas, nada originais, ou esquisitas – este não é o momento de avaliação, mas sim de abrir aquela torneira da criatividade cujo encanamento pode estar enferrujado por falta de uso, e estimular os seus processos inconscientes. Se quiser, determine uma quantidade de tempo (por exemplo, 20 minutos) e escreva tudo o que conseguir sobre o assunto nesse período. Acredite, essa simples técnica pode ser muito surpreendente para quem acabou de descobrir que tem a capacidade de ser uma pessoa criativa, e também para os que já estão bem acostumados com essa maneira de operar a mente. Após um brainstorming você terá bastante material para começar a desenvolver de forma mais criteriosa.

Esse é o início da maior parte da organização que você precisa para trabalhar bem. Uma mente organizada é também produtiva, fluida. Nas palavras de Steven Pressfield, em The War of Art: um profissional não pode viver assim [na bagunça]. Ele está numa missão. E ele não tolera desordem. Ele elimina caos do seu mundo de modo a bani-lo de sua mente.

Mas e a parte do Caos? Steven diz acima que o Caos deve ser eliminado, mas eu discordo dele nesse ponto. Ele não deve ser eliminado totalmente. O caos é o princípio de toda criação, e, assim como no processo do brainstorming, que parece um tanto caótico em sua primeira etapa, precisamos que ele venha à tona do nosso inconsciente. O inconsciente tem sua própria maneira espontânea de juntar as informações que guardamos na memória, e que aparentemente é aleatória e nonsense, para depois podermos organizar seu conteúdo de forma mais racional. O inconsciente pode falar conosco e mostrar suas ideias de forma visual, auditiva, emocional, e até mesmo olfativa. É só prestar atenção a elas. Para ilustrar melhor o que quero dizer, deixo uma fala de Einstein (que era um grande criativo na área da ciência):

As palavras da língua como são faladas parecem não ter qualquer papel no meu mecanismo de pensamento. Os seus elementos certamente são sinais, ou imagens mais ou menos claras, que no meu caso são visuais e algumas vezes de um tipo muscular. A combinação dessas diferentes imagens no pensamento produtivo é o que me permite progredir antes de que haja qualquer conexão com a construção lógica sob a forma de palavras ou qualquer outro sinal que possa ser comunicado a outros.

Como pode um cientista aclamado por habilidades matemáticas não ter um pensamento lógico, mas sim, sinais que parecem “caóticos”, que não conseguia sequer explicar? Einstein era uma pessoa que “via” em imagens o que depois seriam suas teorias revolucionárias para a Física. Essa etapa visual fazia parte de seu processo inconsciente de criação, o qual ele conseguia fazer surgir e depois organizar. Outra vez nos diz John Cleese: esta é a coisa extraordinária sobre a criatividade. Se você manter a sua mente debruçada sobre um determinado assunto de modo amigável porém persistente, mais cedo ou mais tarde você ganhará uma recompensa do seu inconsciente.

E é nesse lugar misterioso e ao mesmo tempo sagrado, no nosso inconsciente, que nos fala a voz da inspiração.

 

3.  A Inspiração – e a falta dela

Beatrix Oliveira Tattoo

Desde a Antiguidade, a inspiração é associada a uma dádiva dos deuses, ou de Deus, tendo uma origem supra-humana e tornando-nos capazes de servir de canal para compreender algo de divino, sagrado; algo que não está somente em nós, mas acima de nós. Este é um dos muitos pontos controversos sobre como a criatividade funciona, e muito provavelmente aquele mesmo que deu origem à ideia generalizada de que esta é uma habilidade reservada a poucos, inata, e até mesmo divina.

Ainda que alguns não vejam esse acontecimento necessariamente como algo divino, e prefiram pensar nele como processos do inconsciente, todos sabemos reconhecer a inspiração. Repentinamente, somos tomados por uma ideia e simplesmente temos de fazer alguma coisa com ela, elaborando a partir dessa fagulha criativa a forma que ela vai assumir. Uma criança é inspirada ao brincar; uma cozinheira é inspirada ao misturar os ingredientes de seus cozidos; um astrônomo, por seu amor ao Universo, é inspirado a compreendê-lo.

Mas apesar de sua existência e fama, será que necessitamos mesmo estar inspirados para criar alguma coisa?

Por definição, a inspiração é aquilo que nos dá a motivação para criar algo, seja o que for. E nós humanos temos alguns truques para nos deixar de modo receptivo a ela. O primeiro passo nós já vimos: abandonar a ideia de que a criatividade é para poucos e começar a se ver como alguém que possui potencial criativo. O segundo é a organização e cultivar o hábito de se exercitar na criatividade. Como a inspiração vai te encontrar se você nunca está lá, praticando e se exercitando?

Para levar adiante a sua relação com a criatividade, você não pode esperar ser agraciado pela inspiração. Achar que devemos trabalhar somente quando inspirados é mais uma maneira de nos afastar cada vez mais daquilo que é importante, e constitui mais uma forma de bloqueio criativo. O hábito de sentar para criar é tão importante, senão mais, que a inspiração em si. Sobre esse assunto, o compositor Tchaikovsky é direto:

Nós devemos sempre trabalhar, e um artista que se respeita não deve cruzar seus braços sob o pretexto de que ele não está no clima. Se esperarmos até estarmos no clima, sem nos esforçarmos para encontrá-lo a meio do caminho, facilmente nos tornaremos apáticos e indolentes. Devemos ser pacientes, e acreditar que a inspiração virá àqueles que conseguem dominar sua falta de inclinação.

Nem sempre as circunstâncias vão estar a nosso favor. Barulho irritante, equipamento que quebra, burocracias do mundo que nos sequestram, ou mesmo o corpo que parece não querer cooperar. Não podemos esmorecer, ainda que dê errado e tenhamos de começar tudo de novo. E às vezes vai dar, mesmo. Nem sempre conseguiremos bons resultados ou seremos vitoriosos. Às vezes vai parecer que há uma conspiração contra tudo o que empreendemos. Às vezes vai parecer que não servimos para aquilo que queremos. Eu mesma já pensei isso algumas vezes. Mas, se continuarmos em frente, apesar dos pensamentos e eventos negativos, veremos que em algum momento as nuvens se dissipam e continuamos lá, fortes, prontos e motivados a criar, apesar da dúvida e do medo.

Lembra-se do que falamos sobre uma mente criativa estar sempre operando? Sons, cores, aromas, memórias, encontros, desencontros, compromissos chatos, objetos comuns e dias ruins – tudo isto pode ser material para a criatividade e fonte de inspiração. Basta procurar novas formas de olhar os eventos. Em algum momento, algo vai lhe cativar e você vai se envolver com aquela ideia a tal ponto que ela parece tomar vida própria dentro de você. Lembra-se também do seu inconsciente, que trabalha de formas inusitadas? A inspiração vem de onde e quando menos esperamos. Mas ela também pode ser cultivada.

Para os gregos antigos, em sua mitologia, a inspiração era causada pelas Musas, nove filhas de Zeus, título que deu nome ao lugar em que se preservam as criações humanas – os museus. Quem nunca ouviu dizer que tal pessoa tem qualidades tais que é musa de outra? Talvez seja raro encontrar alguém impactante assim, mas eis algumas coisas que você pode fazer para se inspirar enquanto isso:

Procure por trabalhos de outros artistas ou profissionais da área em que você almeja desenvolver um trabalho criativo. [O Bruno falou disso no post sobre Modelagem] Isso não só vai te dar um panorama sobre o que já existe por aí, evitar algumas repetições frustrantes e te posicionar frente a tudo o que já foi feito. Vai também te dar novas ideias do que é possível realizar. Muitas vezes, encontrar outras personalidades que inspiradoras pode auxiliar você a se conhecer melhor. O que você deseja expressar criativamente? Quais são as suas inclinações? Os temas que mais lhe chamam atenção? Como outras pessoas trabalharam esse mesmo tema? No meu caso, como trabalho principalmente com imagens, sempre estou à procura de conhecer estilos artísticos, aqueles que mais me agradam e dialogam com o que faço, e até aqueles que não me agradam. Não fuja do que te desagrada por uma questão de gosto pessoal – você pode sempre aprender algo com aquilo. Muitas vezes não se trata do que te agrada ou não, mas de compreender o que está sendo expressado. E às vezes isso até leva a outras ideias que podem ser bem aproveitadas por você.

Por mais que você encontre trabalhos com que você se identifique tanto que gostaria de tê-los feito, jamais faça plágios ou divulgue o trabalho de outros alegando que a autoria é sua. Eu já passei por algumas situações desse tipo e é muito desagradável, inclusive com pessoas que haviam elaborado o trabalho em conjunto comigo. Além do sentimento horrível de que a outra pessoa passou por cima de você e tomou uma atitude desesperada em cima do seu trabalho só para ganhar reconhecimento, o ato é por si só desonesto, preguiçoso, e indica que faltam muitos pontos da ética de trabalho que comprometerão outras instâncias da criatividade da pessoa. Uma delas é não ter paciência o suficiente para estudar e trabalhar, e se focar mais no resultado rápido e na opinião dos que estão vendo ao invés daquilo que sabe ser correto para o seu desenvolvimento real e consistente.

Mas você pode copiar coisas para seu estudo pessoal e divulgar com os devidos créditos. Salve ou guarde aquilo que te chama atenção, seja de coisas externas ou de seus próprios pensamentos. Vai haver períodos em que você vai despejar ideias aos montes, como uma torneira sempre aberta, e não vai ter tempo para executar nada. Mas também vai haver dias estéreis e com muito tempo de sobra. Então, monte uma pequena biblioteca de referências, para usar em dias em que parece haver esse bloqueio parecido com um vazio do tipo “não sei o que fazer hoje”. A tal da falta de inspiração. Se isso acontecer, há uma regra simples – volte ao básico. Faça exercícios simples. Nada de ideias ou projetos complicados. Simplesmente mantenha-se em ação. Pense em que pode se aprimorar antes de querer ter e executar o próximo grande projeto. Manter as coisas num modo simples tira a pressão mental que às vezes fazemos sobre nós mesmos para ter sempre boas ideias.

Vão haver dias em que vai trabalhar apesar de todas as adversidades, e mesmo assim nada funcionará. Nesse caso, dê um tempo. Faça um intervalo, uma caminhada, tome um banho, ou qualquer coisa que prefira, e deixe as ideias assentarem sem ficar forçando uma solução imediata. Faça algo despretensioso. Nada a ver com o tema que está te travando! Muita obsessão pode também causar um bloqueio criativo – mas desta vez por entupimento do cano ao invés de falta de fluxo. Respire fundo. Afinal de contas, este também é outro sentido da palavra inspiração. Relaxe e procure se esvaziar do que parece ser um grande problema. A mente criativa até pode trabalhar sob pressão em muitas circunstâncias, mas noutras ela precisa se recolher. Saiba reconhecer quando o trabalho já foi o suficiente e permita-se descansar. Muitas vezes, tudo o que nós necessitamos é de um olhar renovado para compreender qual o nosso caminho e como podemos aproveitar o que dispomos interna e externamente da melhor forma.

E o mais importante de tudo – divirta-se! Apesar do seu trabalho ser tão sério como uma cirurgia, ele também deve trazer alegria e completude à sua alma. Assim, você saberá que está na trilha correta para algo que pode ser um caminho muito engrandecedor, recheado de desafios mas também de boas recompensas – sejam elas físicas, mentais ou espirituais.

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9 DICAS PRÁTICAS PARA A CRIATIVIDADE – um resuminho deste textão.

 

1. Você JÁ É uma pessoa criativa. E usa sua criatividade para acreditar que não é ou não pode ser criativo. Use-a para estimular mais criatividade, de modo positivo. Quantos problemas e soluções você arranja para si mesmo, todos os dias?

2. Vá, mesmo com medo! Soltar a criatividade muitas vezes amedronta até mesmo aqueles mais experientes em seu uso. Medo de errar, medo do julgamento alheio, medo de estar enlouquecendo, e até mesmo o medo puro e simples do desconhecido. Na verdade, o medo é um indicador de que aquela ação é importante para o seu crescimento. Ele não vai te deixar, mas vai se tornar um companheiro suportável. (Muito mais sobre medo e Resistência à criação em The War of Art.)

3. A criatividade não é somente espontânea. É resultado de muito trabalho e aperfeiçoamento, de um passo após o outro, de algo pequeno para algo ligeiramente maior e assim por diante. Não é sempre que vai dar certo. Considere isso antes de desanimar ante a algumas tentativas frustradas. Achar que vai ser fácil e rápido é subestimar a sua própria jornada de crescimento técnico e mental. Muitas vezes, é diante dos obstáculos que compreendemos mais sobre nossas capacidades e que as melhores ideias são extraídas de nós.

4. Organize-se. A criatividade precisa de um fluxo livre para fazer o caminho da sua cabeça até a forma que ela vai tomar no mundo, através do seu corpo. Ter métodos para se organizar vai poupar um precioso tempo e espaço que a bagunça consome. Mas também deixe uma abertura para suas ideias se associarem de forma espontânea, quase caótica, sem muito julgamento ou controle. Abra-se a elas e observe para onde vão. Selecione e desenvolva depois.

5. Você pode operar de modo criativo o tempo todo. Em alguns momentos, estará somente observando. Noutros, coletando informações que podem ser úteis (ou não). E ainda em outros, estará colocando tudo isso em prática para formar algo novo. E às vezes até vai parecer que você não está fazendo nada. Mas seu inconsciente sabe o que fazer. Ouça-o e espere por ele.

6. Inspire-se no trabalho de pessoas que você admira. Procure o que outros já fizeram que mais se afina com o que você gostaria de fazer, e procure entender o que te atrai nesses trabalhos. O que te move naquilo que já foi produzido pela humanidade? Como você responderia a eles? Porém, saiba separar o que é somente um estímulo daquilo que é o seu trabalho pessoal. O que nos leva a:

7. Jamais faça plágios ou divulge trabalho de outros alegando que a autoria é sua. Além de ser desonesto e desrespeitoso, moldar-se em demasia no que outros fizeram acaba sendo um modo invejoso e preguiçoso de contornar os bloqueios. Copie o que considera bom somente para seus estudos pessoais. Reconheça as conquistas e esforços dos outros como gostaria de ver os seus próprios reconhecidos.

8. Saiba quando parar. Num contexto atual de cobranças excessivas por resultados bons e rápidos, muitas vezes perdemos a noção dos nossos limites e tentamos espremer produtividade quando tudo o que precisamos para desbloquear a mente é espairecer. Superar dificuldades é uma coisa; comprometer sua saúde e insistir numa atitude obsessiva que não está dando resultados é outra. Se você não souber distinguir estes dois momentos, pode acabar adoecendo para que aprenda a ver a diferença.

9. Divirta-se! Uma vez, Neil Gaiman (autor da graphic novel Sandman) disse que o melhor conselho que já lhe deram e que ele nunca seguiu foi: aproveite a jornada. Pode não acontecer o tempo todo, ainda mais quando a criatividade é pré-requisito para o trabalho diário, mas aprenda a relaxar e ter confiança de que o que você está fazendo no momento, ainda que pareça pouco, vai sempre agregar e te impulsionar adiante na sua jornada criativa.

Mãos à Obra!

Beatrix Oliveira Tattoo Beatrix Oliveira Tattoo

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Quais são as suas principais dificuldades com a criatividade? Que tipo de trabalho você faz? Tem algo que gostaria de realizar, mas não se considera à altura do desafio? Conte-nos aqui nos comentários! 

Referências na Web


Autora Convidada: Beatrix Oliveira

Beatrix Oliveira Tattoo Artista visual formada pela UNESP, tatuadora e tradutora.

Se dedica a traduzir o mundo em imagens e palavras, e participa de várias mostras onde expõe suas criações artísticas.

Um pouco do seu trabalho visual pode ser visto no seu Instagram e no Behance.