O terrível hábito de se comparar com as outras pessoas.

Post inspirado e adaptado de um artigo incrível do Leo Babauta (ZenHabits) - e publicado com sua autorização.

Eu faço isso. Você também: nós olhamos para o que os outros estão fazendo e desejamos que nós também estivéssemos fazendo aquilo. Ou, de maneira oposta, nós desprezamos aquilo que eles estão fazendo e os julgamos (e nos consideramos melhores que eles por isso). O primeiro hábito faz a gente desdenhar nossa vida, e o segundo traz uma sensação perversa de superioridade. Nenhum deles nos faz felizes.

Vamos ver alguns exemplos rápidos:

Exemplo 1: Olhar o Instagram

Eu não sou um usuário muito ativo no Instagram, mas de vez em quando dou uma olhada – então eu vejo o tipo de coisas que são postadas: pessoas indo para festas, para a praia, tendo um jantar incrível, viajando o mundo, se exercitando, conhecendo pessoas famosas… em geral, vivendo uma vida extraordinária.

Se você olhasse para esse tipo de fotos com uma certa frequência, seria fácil comparar sua vida chata (sozinho, olhando para o seu telefone) com a vida incrível que essas pessoas tem. Vários questionamentos começam a surgir na sua cabeça:

Por que você não está fazendo mais? Por que não está comendo comidas tão bonitas? Por que não está viajando ou praticando esportes radicais, ou fazendo qualquer outra coisa além do que está fazendo agora? Por que você não tem um corpo melhor?

Não é uma comparação justa, é claro. Essas pessoas tão incríveis não postam fotos de quando estão fazendo coisas mundanas, como sentar no sofá da sala e ficar checando o Instagram. Eles também não estão postando sobre suas ansiedades e seu tédio, seus hábitos negativos e procrastinação, suas inseguranças. O álbum do Instagram daquela pessoa não é uma descrição fiel de sua vida – é apenas uma seleção dos “melhores momentos”.

Mas mesmo que você fizesse uma comparação de igual para igual – seus “melhores momentos” contra os “melhores momentos” deles – qual a razão de fazer isso? Porventura os “melhores momentos” das nossas vidas precisam ser melhores do que os das outras pessoas? E será que esses “melhores momentos” determinam nossa felicidade? Será que a vida se trata de melhores momentos?

Não – a felicidade está em apreciar o que está na sua frente, e não em desejar que você estivesse fazendo outra coisa, sendo diferente do que você é. Você descobre a beleza da vida quando você presta mais atenção nela, e não quando fantasia sobre uma realidade diferente. Você não precisa ser melhor que ninguém: só precisa amar quem você é, onde você está, e o que está fazendo.

É isso que importa.

As comparações não nos fazem mais felizes e não nos ajudam a apreciar mais a vida – elas só fazem com que nos sintamos péssimos com nós mesmos. E isso é de partir o coração!

Exemplo 2: Julgando as outras pessoas.

Vamos dizer que eu tenha trabalhado duro para mudar meus hábitos, tenha deixado de comer porcarias, começado uma rotina cheia de atividade física, e conquistado um corpo legal. Eu enfrentei várias dificuldades para me tornar uma pessoa mais saudável, e me sinto orgulhoso por isso. Daí eu vejo uma pessoa que está acima do peso, que come fast food o tempo todo e não faz exercícios. Uma reação comum é olhar para esse indivíduo e julgá-lo:

“Por que ele não para de comer tanta besteira? Por que não começa a caminhar todos os dias, e a seguir uma dieta saudável? Ele não tem o mínimo auto-controle! Ele é o único culpado por seus problemas!”

Então nós julgamos essa pessoa, e em comparação nos sentimos superiores por não termos esses hábitos ruins. Mas isso não nos faz felizes: julgar as outras pessoas só faz com que a gente goste menos delas, e as respeite menos. Isso não é felicidade – é balançar a cabeça em desaprovação. Nós fantasiamos que essas pessoas deveriam ser mais como a gente, e podemos até nos enganar com ilusões de que elas nos invejam. Podemos até ter o desejo doentio de que essas pessoas olhassem para o nosso Instagram e pensassem “Como esse cara é incrível!”

É óbvio que essas maquinações do nosso ego não nos ajudam a apreciar mais a vida – e sim desejar que as coisas fossem diferentes, que as pessoas fossem diferentes .  E ultimamente nos trazem frustração.

Ao invés disso, poderíamos considerar a possibilidade de tentar entender essas pessoas. Será que nós mesmos já lutamos contra esses hábitos, ou hábitos parecidos? É claro que sim. Nós conhecemos a sensação de enfrentar dificuldades, de nos sentirmos impotentes, de achar que não é possível mudar. Nós não sabemos como é estar na pele dessa pessoa – mas podemos imaginar a sensação… E podemos adotar uma mentalidade de compreensão, não de julgamento. Aliás, ela pode estar muito satisfeita com seu estilo de vida e seu corpo! Quem disse que só é possível ser feliz se você for magro e atlético?

DOIS NOVOS HÁBITOS:

Em ambos os casos, as comparações fazem com que nos sintamos mal com os outros ou com nós mesmos. Isso é uma pena, porque no fundo nós somos boas pessoas… E os outros também são. Mas quando caímos no hábito de comparação, pegamos algo que é bom e transformamos em um pensamento cruel e terrível. Por isso eu proponho dois novos hábitos para substituir a comparação:

1. Apreciar onde você está.

Ao invés de olhar para a vida das outras pessoas, veja a beleza que está na sua frente – ou até dentro de você. Aprecie cada momento, um de cada vez, e seja feliz onde você está. Quando você perceber que está se comparando com as outras pessoas, foque no momento que está na sua frente e encontre maneiras de apreciá-lo. É parecido com a mentalidade de turista.

2. Busque entender, e não julgar.

Quando você estiver frustado com as outras pessoas, ou as julgando… ao invés disso, tente entendê-las. Elas estão passando por um momento difícil? Elas estão frustradas? Tristes? Com raiva? Se sentindo impotentes ou sem esperança? Você sabe como é isso?

Quando buscamos entender uma pessoa, nos afastamos do julgamento. Com essas duas estratégias, nosso coração vem para o lugar certo. E cultivando novos padrões de pensamento, podemos nos libertar da crueldade das comparações – que são absolutamente prejudiciais e desnecessárias.

USANDO OUTRAS PESSOAS COMO INSPIRAÇÃO:

Hoje estou dizendo que é ruim olhar para outras pessoas como meio de comparação. No entanto, em um outro post eu falei sobre a Modelagem, que é uma técnica para utilizar o sucesso de outras pessoas como inspiração e ensinamento para seu próprio desenvolvimento. Como conciliar esses dois pensamentos? Se a comparação não é um hábito positivo, então não posso me inspirar em outras pessoas?

Sim, claro que pode! A Modelagem realmente é uma estratégia muito poderosa e que pode potencializar seu desenvolvimento pessoal e seu aprendizado em qualquer área da vida. A grande diferença está no padrão de pensamento que habita sua mente. Muita gente se inspira nos outros pensando “Nossa, como essa pessoa é incrível! Eu gostaria de ser como ela… Vou começar a fazer o que ela faz.”

É notável que esse tipo de mentalidade te coloca numa posição de inferioridade, de fraqueza, até de inveja. E também traz aquela sensação de que “quando eu for daquele jeito, vou ser mais feliz.” Isso é péssimo, lembra do que eu falei nesse post sobre viver no futuro? Além de tudo, você com certeza terminará frustrado – pois nunca será COMO aquela pessoa. Cada um é cada um, e você sempre será como você.

No entanto, existe uma maneira de buscar inspiração nas outras pessoas que não parte de uma posição de inferioridade, e sim do respeito, da admiração, da humildade.

Imagine que você esteja estudando sobre educação financeira, porque percebeu que precisa organizar suas finanças e começar a tratar essa área da sua vida com mais dedicação. Então você vai atrás de alguém que já passou por isso e encontrou uma solução, e acaba descobrindo um guru financeiro (vamos dizer, o Robert Kiyosaki).

Você sabe que ele já esteve no seu lugar e conseguiu organizar a vida financeira dele, por isso você busca replicar a estratégia que ele utilizou. Você não quer ser como o Robert Kiyosaki, e não acha que ele é uma pessoa melhor que você – mas humildemente aceita que ele possui mais experiência e conhecimento nessa determinada área da vida.

Buscar inspiração e conhecimento na experiência de outras pessoas não é comparação, é simplesmente aprendizado. Só tome cuidado para não cair na armadilha de que, se conseguir fazer tal coisa, então será mais feliz! Nenhum dinheiro, nenhum corpo, nenhuma viagem pode trazer a felicidade se você não a enxerga aqui na sua frente.

AS PESSOAS SÃO INCRÍVEIS

Se conseguíssemos nos libertar totalmente da mentalidade de comparação e do olhar julgador e preconceituoso que temos contra as outras pessoas, então nossa vida seria completamente transformada e iríamos imediatamente perceber a grande verdade sobre as pessoas: elas são incríveis! Todas elas: eu, você, seus familiares, seus amigos, as pessoas que você não gosta, aquelas que você nem conhece.

Não existem duas pessoas iguais: cada uma tem uma história, uma essência, uma maneira única de ver a vida. Eu recentemente fiz amizade com duas irmãs gêmeas, e à primeira vista elas parecem idênticas. Mas conforme você vai conversando com elas, percebe que são pessoas muito diferentes. O que poderiam ser apenas pequenas nuances de voz, de perspectiva, de humor… Na realidade é um universo inteiro que separa a individualidade de cada uma.

Se isso é verdade entre duas irmãs gêmeas idênticas, imagine entre você e qualquer outra pessoa do mundo. Nós estamos tão acostumados a julgar as características particulares como “boas” ou “ruins” que acabamos nem enxergando mais quem as pessoas realmente são – quem nós realmente somos.

Por isso, da próxima vez que você estiver navegando pelo Instagram e encontrar uma foto de alguém fazendo alguma coisa incrível, fique feliz por ela. Se for algo que você quer aprender, então use como inspiração.

Mas faça o que fizer, não se compare com os outros. Afinal de contas, você é único – e tudo o que é único é incomparável.

8 comentários sobre “O terrível hábito de se comparar com as outras pessoas.

  1. Tenho alguns desses acessos de vez em quando olhando o Instagram. Mas não com o que as pessoas estão fazendo de legal, mas sim com a qualidade do trabalho artístico deles. Vejo portifólios esplêndidos, com uma linguagem visual muito bem desenvolvida, cheios de projetos, e penso – estou há 10 anos buscando me aperfeiçoar, e parece que nunca consigo chegar em algo sólido com o meu trabalho! A sensação é que desaprendo, que fico patinando, ou que simplesmente, no momento mais frustrante, não sirvo realmente para a arte. Olhar outros tatuadores é ainda pior: gente que comprou a máquina anteontem, fez sucesso ontem e amanhã estará na convenção de Londres com trabalhos fantásticos, enquanto eu, após quatro anos, ainda tenho problemas para sequer fazer as pessoas acreditarem que o preço que eu cobro é justo. Para angariar clientes e que deem o devido valor ao que faço. E me pergunto – será que sou eu, será que é o Universo que não quer esse caminho para mim? Será que tenho de perceber outras coisas antes de conseguir ter algum retorno considerável? Será que estou ansiosa e interpretando mal o tempo, que é diferente para cada um?
    Enfim, me parece que as pessoas têm uma preocupação muito grande com o julgamento de outras, além do nosso próprio conosco e com os outros – a sociedade atual cobra que sempre sejamos produtivos, que passemos por cima de questões muito sensíveis para ganhar dinheiro, e que se você tem dificuldades para dar conta das exigências é porque ainda é imaturo. Isso não é verdade. As pessoas esquecem de compartilhar as dificuldades porque isso as faz vulneráveis, porque querem manter a imagem de que tudo vai bem e tudo funciona. E esquecem do longo caminho que as aperfeiçoou no que elas são.
    Tento sempre me lembrar de viver um dia de cada vez, sabendo também que algumas das realizações mais importantes não geram nenhum prestígio ou retorno financeiro, mas sim a paz de alma. E a compaixão com os que estão próximos é muito importante nesse sentido. Independente disso, ainda precisamos ganhar a vida, ainda temos ambições, ainda queremos fazer uma diferença no mundo através da nossa profissão. E conciliar o próprio caminho de desenvolvimento com o lugar que achamos que é das nossas aspirações. Nunca se sabe…
    Obrigada pelo texto, Bruno!

    1. Bia! Bem-vinda ao blog.

      Eu também tenho desses acessos de vez em quando 😉 O negócio é fazer exatamente o que você faz: não deixar essa “invejinha” tomar conta da gente, e ao invés disso recobrar a consciência e perceber que não faz o menor sentido comparar uma pessoa com outra.

      No seu caso, o que você faz são expressões artísticas do seu eu – e da sua visão de mundo. Quem mais poderia fazer isso? Se eu fizer um desenho, estou expressando o MEU eu – não o da Bia! Só a Bia consegue uma expressão artística verdadeira do mundo dela. Eu tenho a impressão de que a maturidade de um artista se dá quando ele percebe isso, e assume sua individualidade de corpo e alma.

      Agradeço pela visita e pelo comentário (muito bem escrito, por sinal.) Se quiser postar como convidada no meu blog, só me mandar um e-mail no neopadilha@hotmail.com e a gente conversa!

      Beijão, volte sempre!

      1. Bruno! Não tinha visto sua resposta, vi agora que fui comentar no outro e voltei aqui de curiosidade.
        Sim, concordo contigo, e o que a gente não pode fazer jamais é confundir uma suposta aclamação pública com indicador de um trabalho de sucesso. Nem sempre o que é mais popular é melhor, e aí bate aquela angústia de saber a dedicação que se tem para o melhor e mesmo assim ser “ignorado”. O NOSSO trabalho verdadeiro, que só nós conseguimos fazer, vai se moldando sem nenhuma pressão nesse tipo de retorno.

        Eu vou te mandar um e-mail sim, agradeço o convite! 🙂
        Beijos

  2. Acho que é da gente, do ser humano de se colocar no lugar do outro, de precisar se colocar, se comparar, ter um ponto negativo e positivo sobre a situação. E com isso acabamos na maioria das vezes tristes, com depressão e desanimados com nossa vida. Mas a verdade é essa que o Bruno cita, devemos parar e viver o agora a nossa frente, ser feliz, afinal ninguém posta suas tristezas nas redes sociais, seria tosco. Aprendendo a valorizar os momentos, as pessoas, as pequenas coisas. Um salve pro Bruno, pois me inspirei em um de seus textos e criei um blog, vivenciei mudanças (praticando o modo turista todos os dias, e todos os dias descubro detalhes em minha rota). Parabéns pelo blog incentivador.

    1. Douglas, fiquei muito feliz com seu comentário!

      É uma grande recompensa para mim saber que ajudei com a motivação para que você começasse com um projeto pessoal. Visitei seu blog, achei muito legal! Parabéns!

      Grande abraço, volte sempre!!

  3. Muito bom,
    Eu tenho muito disso, de achar q vou ser mais feliz no futuro, e acabo perdendo os momentos bons, nunca tinha parado para pensar nisso.
    obrigado por me fazer refletir.
    Abraço.

  4. Ótimo texto, Bruno!
    Realmente o Instagram é uma coleção de “melhores momentos” das pessoas. Apesar de serem encarados normalmente como desencadeores de inveja, também tenho essa visão de que podem causar a modelagem. Já vi muitas pessoas aí que acabaram encarando uma aventura de uma viagem exterior por influência de uma postagem de uma outra pessoa. Isso é bom! Tira as pessoas da zona de conforto, da acomodação.
    Quando uma pessoa não está satisfeita com sua vida, tudo se torna razão para colocar pontos negativos e muito vem de dentro da própria pessoa. Muitas vezes não corresponde nem de perto com a realidade. Uma pessoa assim necessita muito de apoio para ela saia desse universo interior que construiu.
    Precisamos realmente abandonar esse olhar julgador, de comparação… Mas mesmo assim, é complicado. Adaptar nosso padrão de pensamento é algo que certamente leva tempo. 🙂

    1. Com certeza, estamos imersos em uma sociedade – e não tem como nos isolarmos da influência das outras pessoas. Como você mesmo disse, isso pode ser muito bom, no caso de aprendermos coisas novas, olharmos as coisas de outras perspectivas, etc. Mas também pode ser prejudicial, se encararmos como “Eu gostaria de ser como fulano”.

      Obrigado pelo comentário, volte sempre!

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