Sobre a Brevidade da Vida & Como Usar Seu Tempo

O post de hoje é de autoria do meu amigo Tarcísio Mauro, que escreve no LoucoDaAldeia.com. Eu gosto de acompanhar os posts dele e acho que você também vai gostar – por isso o convidei para publicar esse excelente texto sobre como usar seu tempo, baseado nos estudos de Sêneca sobre a brevidade da vida. Tenha uma ótima leitura!


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O que você vai aprender aqui

  • Introdução
  • As 3 verdades fundamentais sobre o tempo
  • O homem ocupado e seus vícios
  • Tempo ≠ dinheiro
  • Viver ≠ existir
  • O melhor investimento possível para o seu tempo
  • Conclusão: o que fazer com o seu tempo de vida

Introdução

  • Quem foi Seneca

Lucius Annaeus Seneca (em latim) foi um grande pensador, escritor, orador e conselheiro do antigo império romano, ativo principalmente nos primeiros anos de atuação do imperador Nero.

Seneca é conhecido principalmente por ser um grande contribuidor e divulgador do estoicismo, uma corrente filosófica que tem sido muito revivida atualmente por autores como Ryan Holiday, Tim Ferriss e Steven Pressfield, por exemplo.

O pensamento estóico está relacionado a uma certa rigidez de princípios, nos quais acredita-se que a virtude é suficiente para a felicidade. Isto é, o estoicismo enfatiza que o homem sábio tem apreço por uma vida de simplicidade e o autoconhecimento e assim encontra verdadeira felicidade dentro de si. Condena-se, nessa filosofia, a busca por realização nos prazeres mundanos e vícios, pois os mesmos sempre acarretam em uma dualidade de prazer e sofrimento.

  • Sobre o livro

O livro De Breviatate Vitæ (nome original em latim) foi escrito por Seneca como um conjunto de cartas à Paulinus, um jovem no qual o filósofo tinha grande esperança.

Nessas cartas, que acabaram se tornando o livro Sobre a brevidade da vida, Seneca enfatiza que o tempo de vida é um recurso limitado e precisamos utilizar o nosso tempo sabiamente para não nos arrependermos quando o inevitável fim chegar.

 

As 3 verdades fundamentais sobre o tempo

A verdades fundamentais sobre o tempo não estão expostas de forma clara e organizada no livro. Seneca discute sobre essas três características ao longo da obra e acredito que elas sejam cruciais para o entendimento de toda a temática. Por isso decidi organizar as 3 verdades fundamentais nesse tópico.

Não há nada de novo ou desconhecido aqui, como você vai perceber. Ainda assim, vivemos nossa vida como se tivessemos esquecido dessas verdades.

A sociedade nos força a se encaixar no sistema de qualquer forma. Por isso somos obrigados a inventar desculpas ou viver mentiras ignorando essas verdades; para poder trabalhar como todo mundo trabalha, interagir como todo mundo interage, e viver como todo mundo vive.

Por mais que a verdade seja óbvia e esteja estampada em nossa cara, prefirimos viver a mentira que todos estão vivendo do que viver a verdade como loucos.

Porém, no Louco Da Aldeia não estamos nem um pouco preocupados com isso. Vamos te apresentar para a verdade e te ensinar a encarar ela de frente.

Peço que você leia os 3 tópicos a seguir prestando atenção nas reações do seu ego e da sua mente. Você escuta alguma voz interna lhe dizendo alguma coisa enquanto você encara essas verdades? O que ela diz?

Vamos juntos.

  • O TEMPO É LIMITADO

A realidade é uma ilusão, embora bastante persistente” – Albert Einstein

Devemos nos lembrar de que ninguém é imortal. Todos nós um dia iremos morrer e por isso o nosso tempo de vida é um recurso limitado.

Viver como se a vida não tivesse fim é uma tentação muito grande. Isso se deve ao fato de que, além de o fim ser inevitável, também não sabemos quando o fim vai chegar, o que pode tornar a situação um pouco apavorante. Por isso, nossa mente, a sociedade e todo mundo ao seu redor, preferem passar uma insistente mensagem para você, parecida com essa:

– “Tudo bem, todos vamos morrer e não sabemos quando. Mas nem por isso você precisa viver loucamente no agora. É preciso garantir o seu futuro.

Nós ouvimos isso o tempo todo e vemos todos ao nosso redor passando a esmagadora maioria de suas vidas estudando, trabalhando e entregando todo o seu tempo em troca de algum dinheiro – na promessa de viver uma boa vida quando não puderem mais trabalhar.

Geralmente, nos lembramos que a vida é finita e todos iremos morrer quando alguém próximo de nós perde a vida ou quando estamos muito doentes e em fase terminal.

É ai que paramos pra pensar como a vida é passageira. Todos estão presos ao mesmo destino. Nesses momentos, sempre pensamos: por que não viver de verdade? Todo mundo vai morrer mesmo!

Na maioria das vezes, essa epifania passa depois de algumas semanas e somos sugados novamente para a vida ilusória que todos estão vivendo.

  • O TEMPO NÃO PARA

Ninguém te avisou quando correr… você perdeu o tiro de largada” – Time, Pink Floyd

Já vimos que o tempo de vida é um recurso finito. Seria ótimo se fosse tivessemos a possibilidade de economizar o tempo e gastá-lo só com aquilo que nos interessa, não é mesmo? Entretanto, a segunda verdade fundamental sobre o tempo é tão implacável e óbvia quanto a primeira.

Infelizmente, o tempo não para de passar e não há nada que possa ser feito.

Diferente de recursos financeiros, que podemos escolher quando e como gastar, o tempo só oferece a escolha de como ser gasto.

Faça o que fizer, o seu tempo está se esgotando a cada segundo que se passa.

  • O TEMPO NÃO VOLTA

A terceira verdade fundamental sobre o nosso tempo de vida é o fechamento de uma tríade cruel e avassaladora. Sabemos muito bem que o tempo não dura pra sempre, assim como sabemos que ele não para de passar.

Da mesma forma, apesar do grande esforço que fazemos para esquecer isso, também sabemos sobre o fato de que o tempo não pode ser recuperado.

Novamente, se fosse um recurso financeiro, seria possível investir tempo em uma determinada atividade com chances de ganhar mais tempo em troca. Porém, o investimento de tempo não funciona assim.

Não é possível ganhar tempo de volta, mas ao mesmo tempo não é possível economizá-lo, pois ele está passando sem parar.

Diante disso, o que fazer com o tempo? Será que devemos deixar que ele passe sem fazer nada a respeito?

Vamos ver.

  • Dilema: o que você faria?

Para tornar este post um pouco mais interativo e fazer você pensar de verdade na importância do seu tempo, preparei um dilema. A situação ilusória criada para este dilema tem estreita conexão com a vida real. Leia com atenção, pense um pouco e dê sua resposta sincera. No final do post voltaremos à esta questão para você repensar a sua resposta.

Imagine que você vai morrer daqui 14 meses e sabe disso.

Eu te ofereço então um emprego de 8 horas por dia de dedicação, incluindo terminar trabalhos importantes em casa se for preciso e participar de reuniões fora do horário comercial.

Este trabalho tem o defeito de ser em uma área de atuação estressante e sem oportunidade de aprendizado, mas para compensar, você vai ser muito bem pago.

Digamos que eu te pague 1 milhão e exija que você trabalhe por pelo menos 9 meses. Assim, você ainda vai ter 5 meses de vida para aproveitar os frutos desse investimento de tempo.

Você aceitaria?

Enquanto você pensa, vamos explorar um pouco mais a obra de Seneca para te ajudar na decisão.

 

O homem ocupado e seus vícios

Seneca fala do “homem ocupado” e dos “vícios” diversas vezes ao longo do texto. Portanto, vamos ver o que significam esses termos e de onde eles surgem.

  • Homem ocupado

Primeiramente, esse termo pode ser entendido como pessoas ocupadas em geral, sem restrição de gênero, obviamente. Segundo o autor, a vida é como uma longa viagem. O único problema dessa viagem é o seu destino final: a morte.

O homem ocupado se nega a enxergar as verdades sobre o tempo explicadas acima por que não quer encarar o destino final da vida. Assim como faríamos em uma viagem comum – dormindo, escutando música, assistindo um filme – os ocupados vivem atrás de distrações e ocupações para fingir que essa é apenas mais uma viagem.

A forma mais fácil de encontrar jornadas de distração para o homem ocupado é se render aos desejos do ego. Distorcendo a realidade, o ego nos guia pela ganância, luxúria, necessidade de se impor.

Por isso o homem ocupado vive para satisfazer seus vícios. Só assim ele consegue esquecer que seu tempo nesse mundo é passageiro.

  • Vícios

Os vícios, como são descritos na obra, não são apenas os vícios comuns como o álcool e dependência química. Os vícios aqui são toda a forma de distração encontrada pelo ego dos homens ocupados para se enganar e se sentir melhor em relação à vida.

Um vício comum, por exemplo, é o trabalho compulsivo, que exige quantidades obscenas de tempo. Os ocupados ganham em dobro nesse tipo de vício: se distraindo ao máximo, pois tem a desculpa de estarem envolvidos em algo importante, que é o trabalho; e ganhando dinheiro, que na maioria das vezes é só mais uma forma de alimentar o ego e sentir melhor.

Os vícios tem uma carcterística em comum que os diferem das virtudes: a dualidade.

A dualidade dos vícios faz com que todo o prazer momentâneo trazido pelos mesmos eventualmente se torne sofrimento.

Os homens ocupados nunca estão satisfeitos, e o exagero de seus vícios se tornam a sua ruína. Assim como o amor se torna ódio, a riqueza se torna um fardo e o poder se torna uma fraqueza.

 

Tempo dinheiro

As pessoas não deixam que roubem suas propriedades e correm para se defender com vigor quando há uma mínima dúvida na demarcação de suas terras. Mas os mesmos permitem que outros invadam a sua própria existência – inclusive, eles mesmos são complacentes com aqueles que estão prestes a tomar o seu tempo” – Seneca

Seneca revela, como você viu na quote acima, que se impressiona com a ganância do homem ocupado e o seu desprezo pelo tempo. Existe uma inversão de valores muito grande em nossa sociedade, que é observada desde a época em que Seneca viveu: as pessoas valorizam ao extremo os recursos financeiros e bem materiais, mas dão zero importância para seu próprio tempo.

Lembre-se sempre das verdades fundamentais. O dinheiro é importante, precisamos dele para suprir ao menos as nossas necessidades básicas. Mas o dinheiro pode ser ganhado, perdido, investido e recuperado. O tempo, por sua vez, não pode ser prolongado, não pode ser economizado e nem pode ser recuperado.

Por isso, o tempo é infinitamente mais valioso que qualquer riqueza.

Apesar de não terem o mesmo grau de importância, a comparação do tempo com o dinheiro pode nos ajudar a entender melhor o gerenciamento de tempo para fins práticos.

No livro, Seneca diz que se olharmos para trás com sinceridade e coragem para encarar os fatos, podemos enxergar claramente em que investimos o nosso tempo – e qual foi o retorno disso – da mesma forma que fazemos com o nosso dinheiro.

Vamos ver como isso funciona na prática mais adiante no texto.

 

Viver existir

“Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente, de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.” – Jim Brown

A beleza da obra de Seneca e da filosofia estóica em geral é a exposição da verdade, que é simples e poderosa, mas na maioria das vezes distorcida na cabeça de todos pelos interesses sociais.

Como Seneca ressalta no livro, muitos reclamam da vida, dizendo que ela é injusta e curta demais. Quando pensam nas três verdades fundamentais, enxergam apenas um destino cruel e irreversível.

Na verdade, a vida não é curta. A vida é suficientemente longa para permitir que o homem sábio viva com felicidade plena e conquiste todas as suas realizações pessoais. O tempo é igual para todos, o que muda é a maneira como usamos o tempo que nos é dado.

O tempo passa de forma constante e silenciosa, ele não avisa quando está acabando e nem te relembra da sua importância. Os fatos são simples e imutáveis: o seu tempo é limitado, não para de passar e nunca vai voltar.

Use o tempo com sabedoria. Assim você poderá viver, não apenas existir.

 

O melhor investimento possível para o seu tempo

Não seria sensato falar que existe uma resposta totalmente exata para isso, visto que é uma decisão pessoal. Mas analisando os fatos que temos e seguindo o pensamento de Seneca, percebemos que o homem ocupado não deve ser o nosso modelo de sucesso.

Para Seneca, o homem sábio – que vive sua própria vida ao invés de apenas existir dominado por seu ego – é aquele que tem controle e faz bom uso do seu próprio tempo. Essa pessoa é capaz de olhar para o passado sem medo, enxergar o que fez com o seu tempo com sinceridade e principalmente aprender com quem já viveu antes.

Seneca diz que o aprendizado – a busca por autoconhecimento e o saber em geral – é uma forma extraordinária de se investir o seu tempo.

A capacidade de aprender com os grandes pensadores e líderes – tanto atuais quanto do passado – impede que o indivíduo se torne um homem ocupado, pois o mesmo conhece as artimanhas do ego e sabe discernir quando está dedicando tempo às suas virtudes e quando está alimentando vícios.

Além disso, o conhecimento é a única coisa com valor que se aproxima do valor do tempo, pelos seguintes motivos:

  • O conhecimento não tem limites, ninguém nunca vai conseguir aprender tudo. Trata-se então de uma jornada sem dualidade, pois não chega ao fim;
  • O conhecimento está sempre abrindo possibilidade para evolução. Quanto mais você sabe, mais oportunidades de aprendizado você tem;
  • E por último, o conhecimento é algo que nunca poderá ser tomado de você. Seu conhecimento é só seu e nunca será perdido.

Diferente do tempo, que é limitado, está sempre acabando e não pode ser recuperado, o conhecimento é ilimitado, pode estar sempre crescendo e não pode ser tomado de você.

Se tiver que trocar o seu tempo por algo – e sabemos que não temos escolha quanto a isso – troque seu tempo por conhecimento.

 

Conclusão: o que fazer com o seu tempo de vida

Depois de tudo que aprendemos até aqui, vamos dar uma olhada no dilema e compará-lo com a vida real. Novamente, não existe resposta certa para essa situação – por isso mesmo é um dilema. Mas podemos utilizar a visão de Seneca para pensar como o homem ocupado e como o homem sábio abordariam essa questão.

Análise do dilema

Recapitulando, nesse dilema somos uma pessoa com os dias contados, temos 14 meses de vida. Recebemos uma oferta interessante: trabalhar por 9 meses em um emprego exigente e frustrante – mas nada fora do comum – em troca de 1 milhão para aproveitar o resto de nossas vida.

Você pode estar com um pé atrás, pensando que talvez seja tempo demais de trabalho para o restante de vida que temos nessa situação, certo? Mas trazendo isso para a escala real da nossa vida, a situação é quase a mesma.

Se pensarmos de forma muito generosa e fingir que vamos viver com certeza até uns 85 anos, vamos estar estudando ou trabalhando por mais ou menos 60% do nosso tempo de vida.

Porém, essa situação na vida real tem mais variáveis a serem consideradas. Você não sabe nem mesmo se vai viver até a média de expectativa de vida. É impossível prever o futuro. Por mais que a gente tente esquecer disso, também nascemos com os dias contados, mas é ainda pior: não temos previsão para morrer, pode acontecer daqui 60 anos ou daqui 60 minutos.

Ao se dedicar à uma atividade estressante e sem possibilidade de aprendizado – apenas para ganhar dinheiro e aproveitar o “final da vida” – você está fazendo uma escolha arriscadíssima.

Você está desperdiçando a sua juventude, onde está cheio de paixão e energia, em troca da mera possibilidade de aproveitar prazeres compráveis, os vícios, quando estiver com a idade avançada – novamente, se você chegar lá.

O homem sábio, que tem capacidade de olhar para o passado e aprender com os erros de quem já viveu, sabe que esse roteiro já se repetiu muitas e muitas vezes ao longo da história e tem um final trágico.

Mesmo quando esse arriscado plano funciona – você consegue se aposentar com bastante dinheiro e saúde o suficiente para aproveitar algumas décadas – as pessoas não conseguem se perdoar ao lembrar de todo o tempo investido, toda a juventude perdida e tudo o que poderiam ter feito.

Na maior parte das vezes, os adeptos desse investimento de alto risco chegam ao fim da vida sem o conhecimento necessário para encarar essa fase, pois estavam muito distraídos em seus vícios. Resta aos mesmos, então, apenas aproveitar mais de outros vícios que antes não podiam – que os recompensam com prazeres momentâneos seguidos de amargo sofrimento.

Parece um bom negócio? Acho que não.

O que fazer

Usando o que aprendi com a brevidade da vida, o meu conselho é que você encontre algo que te inspire, que traga valor para sua vida e para a vida das pessoas ao seu redor. Encontre algo que te empolgue fazer, que te ensine mais sobre a vida e sobre tudo o que puder aprender.

Assim, mesmo quando estiver trabalhando, você estará aprendendo e vivendo, não apenas existindo.

Além disso, ao buscar a felicidade dentro de si mesmo e no conhecimento, você estará investindo tempo em suas virtudes em oposição aos vícios – evitando a dualidade que eles trazem.

Dessa forma, você também não vai precisar arriscar o seu tempo e a sua juventude somente na possibilidade de “viver bem” em um futuro ilusório, o que é um péssimo investimento. Ao invés disso, você pode apenas utilizar o tempo que já seria gasto de qualquer maneira para ganhar algo de valor também inestimável, que é o conhecimento.

A vida não vai durar pra sempre, você não pode controlar ela e você não pode voltar atrás, apenas se arrepender.

 

Você está vivo agora, viva a vida agora!

 


CONHEÇA O AUTOR CONVIDADO

Tarcisio Mauro Louco da Aldeia

Tarcisio Mauro é autor do blog de desenvolvimento pessoal Louco Da Aldeia. Foi quando estava estudando nos EUA que descobriu o poder da leitura e autoconhecimento para aumentar a produtividade e resultados em todas as áreas da vida – e decidiu compartilhar tudo no seu blog.